Faz tempo que não atualizo este website, em nome da praticidade de um blog. Acho que, de fato, o website morreu a não ser para as empresas e os campos profissionais. Hoje o blog, muito mais fácil e ágil (ainda que mais efêmero), domina.
Se quer me encontrar, procure-me na sessão BLOGS. Eu escrevo em vários lugares atualmente.
“[O defensor da existência de seres extra-dimensionais] quer as duas coisas -- a linguagem e a credibilidade da ciência, mas sem ficar limitado pelo seu método e suas regras. Parece não compreender que a credibilidade é conseqüência do método.”
— SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.184.
SÃO OS ÍNDIOS ECOLOGISTAS?
Originalmente publicado na Folha de S.Paulo, caderno Opinião, em 18/5/2000, e continua atual.
Os índios dispõem de extenso e refinado conhecimento do meio em que vivem. Mas é bom não exagerar.
por Ricardo Arnt
(Então redator-chefe da revista Superinteressante)
Petike Panará, 20 anos, gastou 40 minutos para realizar uma das tarefas mais brutais que já vi: derrubar uma árvore de 30 metros a machadadas para alcançar uma colméia encravada no alto do tronco. No norte de Mato Grosso, os panarás fazem assim: recolhem folhas no chao, depositam o monte na base do tronco e poem fogo. A fumaça sobe e afugenta as abelhas que descem do alto. Depois, observam a abertura do oco, as árvores em volta e estudam o ângulo do corte para ela cair com a entrada da colméia para cima. Se cair virada para o chao, como se vai pegar o mel?
Em meio à fumaça, com as abelhas picando, Petike golpeou o gigante até rasgá-lo. A cada machadada, o suor saltava, rajado pelo sol. Fiquei perplexo. Lá se ia a árvore. Depois, relaxei e pensei o que talvez ele pensasse: "Ora, tem tanta árvore". Ao meu lado, um amigo antropólogo sorria, apreciando meu espanto. Mas, quando fiz piada sobre o caráter "ecológico" das culturas indígenas, riu amarelo.
Índios nao sao ecologistas. A antropologia conhece várias histórias indígenas de predaçao de recursos naturais e caça exterminadora, como o massacre dos castores pelos algonkians americanos ou dos moas pelos maoris da Nova Zelândia. Só Kevin Costner acredita que índios nao matam femeas de animais grávidas. Graças a mal-entendidos como esses, o mito do bom selvagem, tao caro às populaçoes urbanas nostálgicas de uma vida natural, entronizou-se: no espelho partido do homem calculável reflete-se o fantasma do índio memorável erigido em Homem Ecológico.
É claro que o pequeno impacto demográfico das sociedades indígenas, suas tecnologias brandas e sua imersao em um território no qual a sobrevivencia depende do ambiente ajudam a construir o mito. Os índios dispoem de extenso e refinado conhecimento do meio em que vivem. Mas é bom nao exagerar. Tentativas recentes de vesti-los com o manto da engenharia ecológica ou de atribuir a eles a posse de segredos biológicos redundaram em fiasco. Na verdade, disseminaram ceticismo.
Nos Estados Unidos, debate-se a fundo o futuro das nossas florestas. Biólogos como J. Terborgh e K.H. Kramer salientam a incompatibilidade da preservaçao da diversidade biológica com a ocupaçao humana. Eles defendem, com argumentos "duros", o imperativo de uma política de conservaçao baseada na expansao de parques e reservas intocadas, desabitadas e vedadas a intrusos, conforme o modelo europeu.
Por outro lado, organizaçoes indígenas e sindicatos extrativistas propoem a defesa da biodiversidade por meio do desenvolvimento sustentável das comunidades que habitam as florestas, cuja premoçao de diretos básicos, como a posse da terra, o acesso a educaçao e a saúde, cria condiçoes para a preservaçao tanto dos saberes tradicionais quanto da integridade dos territórios.
No Brasil, temos os dois tipos; estaçoes e parques vedados à ocupaçao e florestas nacionais e reservas extrativistas destinadas ao uso sustentável. Para os americanos, deveríamos investir mais em áreas vazias e protegidas.
Ocorre que lidamos com outras variáveis. Sob o assédio irracional das queimadas, das madeireiras clandestinas, da pecuária e da agricultura mecanizada, o desmatamento só aumenta. Apesar do escândalo dos últimos dez anos, 14% da floresta amazônica já se foi. A derrubada avança, e a sociedade nao parece capaz de dete-la. No fundo, talvez nem o deseje. Com um pouco mais de crescimento econômico, em dez anos é provável que cheguemos aos 20%. E, se olharmos as 154 unidades de conservaçao existentes na Amazônia, veremos que se trata de figuras de papel, criadas, mas jamais implantadas, ou sofrendo invasoes e depredaçoes onde o foram.
O Estado nao consegue gerir o território. O Ibama dá pena. E, como há incendios maiores nas contas públicas e nos déficits estruturais — queimando as cidades, nao as florestas —, a Amazônia continuará largada e ignota.
Nao é razoável esperar que o Brasil "evolua" até padroes de conservaçao europeus. Se e quando isso acontecer, será tarde para vastos territórios. Mas pegue qualquer mapa de desmatamento do IBGE (Fundaçao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ou do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e observe as 370 áreas indígenas da Amazônia. Embora também sofram invasoes, a macrodevastaçao pára nas suas fronteiras. Onde há índios ou seringueiros vivendo em reservas legalizadas, a pecuária estanca e as madeireiras pelo menos se escondem. Onde há gente defendendo a terra, há áreas preservadas e quase intactas.
Mesmo nas áreas de grupos que se associam aos madeireiros para depredar recursos em troca de migalhas, que o Estado deveria fornecer, mas nao o faz, a biodiversidade subsiste em condiçoes inexistentes nas fazendas em torno. Isso confere aos índios, embora nao sejam ecologistas, a chance de transformar a floresta em cultura, o que pode talvez ser muito bom para o país. Sem esquecer que a terra é deles.