Este texto foi originalmente publicado em 06/11/2008 no blog Notícias da Terceira Terra.
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Não consigo pensar em outra palavra a não ser chocado. Foi assim que fiquei ontem, dia 05/11/2008, ao ler no blog Pensotopia que Michael Crichton havia morrido.
Minha primeira reação foi de descrença. Consultei mentalmente o calendário para ver se não era Primeiro de Abril, ou se havia outro dia no ano em que se passava trote. Depois reli, e reli de novo, pensando se não seria uma jogada de marketing para o próximo livro e eu havia perdido um trecho do texto, ou lido algo errado. Depois, negando, pensei que era mentira — claro, só podia ser! — mas a notícia linkava para a CNN.
Acessei o site da CNN e li a notícia lá duas vezes. Pesquisei no Google, entrei em outras três agências de notícia... e só então comecei a aceitar que era verdade. Então veio o choque, uma paralisia, um vazio no peito que só sente quem já perdeu algo muito precioso.
Algumas pessoas não deveriam ter o direito de morrer. E com Michael Crichton morreu um belo pedaço da literatura contemporânea. Que diabos, o que vou ler agora?!? Acabou, meu amigo, acabou o gênero de suspense moderno. O que me resta? Robin Cook? Tom Clancy? Os caras são bons em seus estilos, mas ninguém se iguala a Crichton. “O Parque dos Dinossauros” foi o primeiro livro que li dele e até hoje é minha referência para comparar qualquer outra obra de suspense. Quem me conhece sabe que avalio o que leio com 5 níveis, fraco, razoável, bom, muito bom e excelente. O nível mais alto poderia ser ótimo, mas cinco numa escala de cinco, para mim, é uma coisa sem falhas, provida de excelência. Se eu digo que um livro é excelente, é porque não consegui achar absolutamente nada que me desagradasse, nem mesmo uma conjugação verbal destonante, e trata-se de uma obra que é absoluta em seu gênero, uma referência às outras que leio. Só classifiquei com excelente nesses 15 anos de devoração insaciável de literatura quatro livros, um de cada gênero. E Michael Crichton é minha referência ao classificar thrillers.
Michael Crichton morreu dia 04 de novembro de 2008, de um câncer não especificado. A notícia só foi liberada pela família no dia seguinte, e seu tratamento nestes últimos anos foi mantido em sigilo. Acho que justamente por isso adveio o choque tão grande. Se soubéssemos que ele estava doente, talvez já esperássemos por isso. Ele tinha 66 anos, o que não é nada. O cara ainda escreveria por mais vinte anos, pelo menos. E, como escrevia pouco — um livro a cada três anos, por aí —, nos cerceou de no mínimo outras sete obras suas.
O autor se destacou entre seus pares por produzir ficção com conteúdo científico incrivelmente apurado e preciso, dando a impressão de dominar completamente cada tema. Ainda, cada um de seus livros sempre trás uma dura crítica a algum aspecto da sociedade norte-americana. “Parque dos Dinossauros” e “Linha do Tempo” alertam contra a pesquisa de ponta sem critério e voltada apenas para os lucros; “Sol Nascente” critica o medo que os norte-americanos tinham da “invasão” japonesa ao sistema financeiro norte-americano na década de noventa; “Esfera” bate de frente contra as idéias que temos sobre vida alienígena; “O Homem Terminal” ataca duramente a medicina voltada a resultados práticos (i.e. financeiros); “Armadilha Aérea” esclarece a ignorância que temos a respeito da aviação comercial e de sobra alfineta com força a imprensa televisiva; “Revelação” (recentemente relançado como “Assédio Sexual”) analisa de forma inédita o tema do assédio sexual nas empresas; “Estado de Medo”, seu livro mais controverso até hoje, investe sem dó nem piedade contra a idéia do aquecimento global e denuncia a ciência consensualista.
Com finais realistas e não-raro súbitos, Crichton às vezes não agrada a todos, especialmente àqueles que ele está a recriminar. Mas cada um de seus livros, sem excessão, leva o leitor ou leitora a um passeio por uma aventura em alta velocidade através de cenários comuns mas pintados de modo extraordinário, da polícia de Los Angeles às profundesas do Oceano Pacífico. E ainda por cima, quem lê termina cada obra com a certeza de ter ficado cultura ou cientificamente um pouco mais rico.
Ainda me restam três livros de ficção de Michael Crichton para ler. E eles serão lidos com um gosto muito mais especial agora. E ligeiramente salgado.