Este texto foi originalmente publicado em 30/6/2008 no blog Notícias da Terceira Terra.
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First Blood é o nome do filme, estrelado por Sylvester Stallone, que todos viemos a conhecer e a amar como "Rambo: Programado para Matar". Com uma trilha sonora tipicamente emotiva do saudoso Jerry Goldsmith, "First Blood" é uma adaptação livre do livro homônimo de David Morrell. O filme é de 1982 e o livro, de dez anos antes. De fato, é a primeira obra do autor canadense.
Para quem não sabia, o título é surpreendente, não é? Mas há outros mais estranhos. Ele é "A Fúria do Herói" em Portugal, "Acorralado" na Espanha, "Rambo: Le dévastateur" no Québec e "Taistelija" (algo como "combatente") na Finlândia.
Dirigido por Ted Kotcheff (que também foi o responsável por "Um morto muito louco" e vários episódios de "Law & Order: SVU"), foi o segundo grande sucesso de Stallone fora da série "Rocky". O filme, no entanto, desvia-se bastante do livro, em especial no caráter do personagem Rambo. Assim como a obra literária, o filme faz uma crítica contundente ao que a Guerra do Vietnã fez com a mente dos soldados norte-americanos, e o tratamento dado a esses veteranos de volta em casa. Mas o Rambo literário, diferente de sua contraparte da tela grande, não hesita em matar indiscriminadamente os policiais que o perseguem; estes, por outro lado, são a Lei e não os covardes cruéis do filme. Podemos dizer que o Rambo literário não é nada heróico: o objetivo do livro é mostrar de forma forte e crua o que a guerra fez com aquele soldado, tendo o transformado numa máquina de matar amoral, que ninguém consegue parar. Os capítulos se alternam, ora mostrando o ponto de vista e as razões de Rambo, ora o ponto de vista e as razões do xerife — ele mesmo um herói de guerra, só que da Guerra da Coréia. O leitor acaba ficando dividido, sem saber para quem torcer.
O livro é bem mais violento que o filme, e no fim você não tem nenhuma simpatia por Rambo (que não tem primeiro nome). No tiroteio final com o delegado, ambos acabam se ferindo e não são mais capazes de fazer mira um no outro. É então que o Col. Trautman, convencido de que o único modo de parar Rambo é mantando-o, esgueira-se por trás de seu soldado e explode-lhe a cabeça com uma espingarda.
Ah, que pena, contei o final? Que coisa... como se você fosse ler o livro mesmo. Várias obras de David Morrell podem ser encontrados com facilidade em português, seja em catálogo, seja em sebos, mas "First Blood" não é uma delas. Lançado em 1972 pela Record sob o título "Primeiro Sangue" e depois como "Rambo" pela Nova Cultural, está fora de catálogo há vinte anos. Mas pode ser importado, no original em inglês, no site da Saraiva por R$ 14,60 (preço de junho de 2008).
De qualquer forma, se você é fã do Rambo a ponto de ler o livro, então já terá visto que nos extras do DVD lançado em 2002 (e que pode ser facilmente encontrado nas Lojas Americanas ou no Carrefour) foi gravado outro final para o filme, mais condizente com o livro, em que Rambo pede para Trautman o matar, mas que este se recusa; Rambo então agarra a mão de Trautman e atira em si mesmo — uma cena que foi aproveitada no pesadelo/flashback que Rambo tem no meio do filme "Rambo IV".
De David Morrell, eu recomendo não "First Blood", mas "A Irmandade da Rosa" (1984) e "Creepers" (2005). Morrell costuma escrever muito sobre espiões ou matadores profissionais, mas tudo o que eu li dele é bem diferente de "First Blood": seus protagonistas estão mais para James Bond que para Rambo, e eles geralmente agem em duplas. "Creepers", em especial, é muito interessante, porque é a história de exploradores urbanos, que invadem prédios velhos e abandonados em busca de adrenalina — e conseguem bem mais do que queriam. Que eu saiba, ainda não saira no Brasil quando da publicação deste texto.
Morrell também foi o responsável pela novelização dos filmes "Rambo II: A Missão" e "Rambo III" — e que, ironicamente, são mais fáceis de achar em sebos que o primeiro livro. Mais recentemente, seu trabalho como escritor pode ser conferidos nas páginas pós-Guerra Civil do gibi do Capitão América.
"Rambo: Programado para Matar" mudou o jeito de se fazer filmes de ação para sempre. Antes dele, um filme do gênero continha três cenas de ação, se muito. Só que neste, a ação começa com mais ou menos 15 minutos dentro do filme e daí não pára — com exceção da introdução de Trautman, em que sabemos do passado de Rambo, a fita de 95 min. entra num ritmo frenético dos primeiros 15 min. até o fim! A partir deste filme, todo o cinema de ação passou a copiar esse ritmo praticamente initerrupto.