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Este texto foi originalmente publicado em 10/11/2008 no blog Notícias da Terceira Terra.

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Leia o livro. Veja o Filme. Ouça o disco.

Eu não estou nesse grupo, mas uma porção respeitável do público que gosta de adaptações cinematográficas de livros freqüentemente reclama da enorme quantidade de elementos que são deixados para trás numa adaptação assim. Algo perfeitamente compreensível, já que o romance médio leva cerca de 15 horas de leitura, enquanto que um filme longo tem três horas, no máximo.

Levando-se em consideração que uma imagem vale mil palavras, podemos considerar que a maioria dos livros daria dois filmes — se você não ouviu alguém dizer isso, então você já disse isso. E parece que finalmente alguém em Hollywood topou fazer algo assim para ver no que dá: na série “Harry Potter”, os estúdios Warner preferirão fazer dois filmes do volume final, “As Relíquias da Morte”. Isso é pouco mais que um rumor. Ouvi no podcast “Let's do this” de 03 de Novembro do site Spill.com (por volta dos 75 minutos). Mas, se confirmada, será uma experiência interessante.

Já foi feito algo assim, pelo Sci-Fi Channel: misturaram a história de “A Cor da Magia” e “A Luz Fantástica”, ambos de Terry Pratchet, numa só e a dividiram em dois filmes para a TV. Com “O Enigma de Andrômeda”, de Michael Crichton, também foi dividido em dois episódios de uma minissérie, totalizando quase quatro horas. Mas, tecnicamente, um grande estúdio nunca fez isso com uma super-produção.

Eu sou consumidor inveterado de literatura de ficção, e não gosto de adaptações fiéis para o cinema. Em primeiro lugar, eu não me importo com adaptações para o cinema. Para mim, a mídia principal é o livro, ao filme restando um distante interesse secundário. (Não me entenda mal, eu adoro cinema; estamos falando aqui de adaptações de livros.) Não saio correndo para assistir a adaptação de um livro que eu tenha gostado e nem fico excitado ao saber que uma obra de literatura que me agradou se tornará filme. Antigamente, eu ia atrás de um livro que se tornara filme e o lia, se possível, antes de ver o filme; atualmente isso não é possível, porque nove de cada dez filmes lançados são baseados num livro, gibi ou videogame. Daqui há pouco os cinco concorrentes ao Oscar de melhor roteiro original serão os únicos cinco filmes com roteiro original produzidos naquele ano. (Esta observação é da Luciana. Só peguei emprestada.)

Em segundo lugar, como eu gosto mais das histórias de livros nos livros, prefiro que elas fiquem diferente quando viram filme. Radicalmente diferentes, quero dizer. E por quê? Porque eu já conheço a história, ora! O que eu ganho ao ir ver de novo uma história que eu já li, exceto que desta vez ela irá durar duas horas ao invés de 12? Torci para que o final de “Eu Sou A Lenda” fosse diferente, e adorei descobrir que a trilogia Bourne literária não tinha nada a ver com os filmes, além dos títulos e o nome do protagonista; veja, ganhei seis histórias ao invés de três em dois formatos diferentes. “Escaflowne” é o melhor exemplo de um aproveitamento assim de múltiplas mídias: o mangá tem uma história, que tem pouco a ver com a versão em OVAs, que é simplesmente o oposto da história do filme. Houve, por parte dos produtores, um entendimento de que aquela história poderia ser contada de várias maneiras diferentes, com resultados diversos, e foi o que fizeram em cada uma das mídias em que “Escaflowne” apareceu — o filme, por exemplo, explora o advento de Hitomi em Gaea como um mau agouro, não bênção, premissa dos OVAs. Que graça teve “300 de Esparta” no cinema? Aquela m&#§@ ficou igualzinha, quadro por quadro, à história em quadrinhos! Joguei meu dinheiro fora. Definitivamente espero que Zack Snider esteja apenas exagerando quando diz que usou os gibis de “Watchmen” como uma Bíblia ao criar o filme da obra de Alan Moore — até porque a Bíblia Sagrada tem muuuuuitas interpretações.

Outro aspecto que me agrada em adaptações cinematográficas é a visão do diretor. Pode ser do roteirista + diretor, ou produtor + diretor, ou qualquer mistura dos três, o ponto é que eu, quando li determinado livro, interpretei certos eventos de determinada maneira. Não é todo livro que permite fazer isso, mas “O Senhor dos Anéis”, por exemplo, permite. Felizmente (para mim) a interpretação de Peter Jackson da trilogia de Tolkien foi bastante diferente da minha, o que me fez gostar muito dos filmes — não por causa de algum desejo de “ver aquelas cenas do livro com atores em carne-e-osso e efeitos especiais”. Antes de tudo, não há produtora de efeitos especiais no mundo capaz de produzir efeitos especiais como os da minha mente, nem haverá (se você pensa o contrário a respeito da sua mente, tenho pena de você, 85). Depois, mas não menos importante, um livro é uma experiência diferente e única, assim com um filme (com roteiro original) é uma experiência única — “Predador”, por exemplo, não fica muito bom nos gibis e videogames. Duvido da qualidade de obras deliberadamente feitas para tornarem-se filmes, como o famigerado “300 2” que Frank Miller está preparando. Se eu já li o livro, quero é ver algo diferente no cinema, não uma cópia mais curta da história que já conheço; não sou fã de resumos e, se eu quiser ter aquela experiência novamente, leio o livro de novo.

Muita gente torce o nariz para a opinião que apresentei aqui, o que é perfeitamente compreensível. Se você gosta de uma cópia ipsis literis de seu livro ou gibi favorito no cinema, se lê um livro só quando ele está para se tornar filme, ou se faz o caminho inverso, preferindo sempre ler o livro depois de ver o filme (oh, sim, essas gentes estranhas existem), isso é realmente problema seu. Afinal, você tem que agradar a si mesmo ao ir ao cinema ou comprar um livro, não a mim. Até porque eu irei fazer o mesmo.

(85 é uma referência a Alien³)