navegação


noviidades

a primeira missão


Apesar da insistência e lábia do mago, a criaturinha não revelou mais nada, tamanho o medo que demonstrava de seu mestre...

LEIA MAIS

resenhas de fantasia por Rodolfo de Souza Jorge

Estas são resenhas de obras encontradas na biblioteca do meu amigo, o Rodolfo. Este psicólogo paulistano, nascido em 1978 (mesmo ano em que 912 seguidores de Jim Jones cometeram suicídio em massa) é um viciado em literatura, daqueles que lê qualquer coisa que caia na mão. Neste artigo, ele analiza brevemente alguns dos principais volumes de sua nada modesta coleção.

Todos os livros foram classificados de ruim (uma estrela) a ótimo (cinco estrelas).

Fronteiras do Universo * * * *
(Philip Pullman)
      Uma ótima trilogia, que trabalha com a idéia de mundos paralelos. O leitor começa seguindo uma menina de outro universo, que descobre a existência de "Terras Paralelas", e no segundo livro você acompanha um garoto de nosso universo, na mesma aventura de descobrimento. O terceiro livro traz uma aliança das duas crianças e extrapola essas viagens de Terras paralelas: o autor leva os protagonistas para mundos realmente bizarros, como o Mundo dos Mortos. O mais curioso é a construção das outras Terras, com variações de elementos de nosso universo, mas vai além de A Terra Em Que O Império Romano Nunca Caiu, porque em cada dimensão muda-se a ciência, a relação do ser com a própria alma, etc. Um texto ágil, mas que requer certa vontade de ler, porque o autor freqüentemente leva os protagonistas por divagações a respeito da vida, do universo e tudo mais.
     Literatura infanto-juvenil de qualidade, que recentemente recebeu nova edição com encadernação luxuosa e capas mais "adultas". (O primeiro livro, A Bússola Dourada, virou filme pela New Line em 2007.)

Deltora Quest
* * * *

(Emily Rodda)
     Outra história infanto-juvenil (talvez mais dentro do gênero que "Fronteiras do Universo"), de fantasia, meio conto-de-fadas. Na primeira série, o enredo gira em torno de uma busca de proporções legendárias às pedras do Cinturão de Deltora, artefato capaz de remover a influência do Senhor das Trevas do reino. O mais legal é que a história começa simples e vai se engrandecendo no decorrer dos livros (são vários volumes de pouco mais de cem páginas cada). Os vilões e antagonistas são muito bem construídos, dramáticos, e os heróis freqüentemente recorrem à inteligência para sobreviver aos desafios, e não à força bruta ou magia; a história está repleta de enigmas e quebra-cabeças.
     Deltora Quest virou uma série de TV no Japão.

Crônicas do Mundo Emerso * * * * *

(Licia Troisi)
      Inusitado de muitíssimo bem escrito. Uma história sobre cavaleiros de dragões muito mais legal que "Eragon", só que como a autora é italiana e não californiana, teve muito menos espaço na mídia (um detalhe: Troisi é astrofísica de profissão, não um garotinho que cresceu lendo Harry Potter). O grande vilão está dominando todo o Mundo Emerso e os povos livres estão tentando manter uma Resistência. Nos dois primeiros livros vemos o desenvolvimento dos dois personagens principais. Ela, a última sobrevivente dos semi-elfos, torna-se uma guerreira; ele, seu amigo de infância, torna-se um mago. No último livro da trilogia eles finalmente se unem para enfrentar o vilão. As batalhas são mais bem escritas que "Eragon", ninguém é "overpower" (os heróis se dão mal às vezes). A persona dos heróis é bem mais trabalhada e profunda que os de "Eragon" e há poucos clichês.
     Apesar de ser encontrado na prateleira de infanto-juvenil, é na verdade muito mais perto de Dragonlance que de Harry Potter.

Märchenmond *

(Wolfgang e Heike Hohlbein)
     A Terra da Floresta Sombria tenta ser uma "História Sem Fim" alemã, mas acaba sendo uma história água-com-açúcar, sem nada de mais.
     A irmã do protagonista fica doente e é hospitalizada. Mas na realidade ela fora seqüestrada pelo Lorde das Trevas (sempre ele). Então um mago traz o menino para sua dimensão mágica, para resgatar sua irmã.

O Prisioneiro da Sombra * * *

(Luiz Roberto Mee)
      Fantasia nacional, o que já é motivo para ler. Mee já está por aí há alguns anos, e eu o conheci através do livro "Viagem à Trevaterra". Mee começa o livro com um mundo de fantasia clichê mas que logo quebra os paradigmas esperados. A história é de um jovem mago, com o potencial para se tornar o mais poderoso mago daquele mundo, mas que acaba fazendo muita besteira, tornando-se uma desgraça para si e para o cosmo. O livro conta sua saga na tentativa de reverter essa situação. Trata de abuso de poder, responsabilidade e orgulho. O final é, numa única palavra, inesperado.
     Por algum motivo, as editoras ainda classificam qualquer história de fantasia como infanto-juvenil. Se algum editor tivesse tido o trabalho de ler esta obra, o teria colocado ao lado de romances nacionais de temas pesados.

O Livro das Estrelas * * * * *

(Erik L'Homme)
      O melhor Harry Potter que eu já li (li os três primeiros Harry Potter e não gostei). Literatura infanto-juvenil francesa, cujo protagonista é um aprendiz de mago. Magistralmente escrito, intercala mistério, aventura e cenas cotidianas de adolescentes, descreve também um país fictício (o país de Ys) que fica numa dimensão intermediária com a nossa e uma dimensão totalmente mágica. Os adolescentes são mais "reais" que os dos livros de J. K. Rowling, e suas aventuras são mais similares àquelas de aventureiros do Dungeons & Dragons, mas o mais legal é o sistema de magia apresentado, que é bem mais complexo que gesticular uma varinha e dizer palavras. Tem haver com saber os nomes das coisas, de onde a magia emana, posições das estrelas, a filosofia envolvida no próprio encantamento; mais uma ciência que uma arte, na verdade. Muito original, nesse sentido, o que por si só já vale a pena lê-lo.
     A trama envolve a clássica batalha contra o Senhor da Escuridão, mas a história é cheia de reviravoltas e surpresas, de um modo altamente criativo e de modo algum clichê. A trilogia é uma leitura de texto fácil, mas prende o leitor — portanto, não o leia antes de dormir, ou vai se pegar grudado no livro até as três da manhã.

A Lendária Hy Brasil * * *

(Michelle Klautau)
     Nacional, é interessante porque mistura os mitos tolkenianos com os tupiniquins (disfarçadamente, mas dá para perceber que há elementos nacionais). É uma história de elfos que chegam a uma terra estranha (a Lendária Hy Brasil) e a história deles nessa terra, que tem deuses próprios, populações indígenas, seres das trevas, deuses negros, etc. Imagine um reino de alta-fantasia baseado no Brasil colonial. É justamente essa mistura que torna o livro interessante. No entanto, acaba recaindo na fórmula tolkieniana de uma história sobre elfos.

As Brumas de Avalon * *

(Marion Zimmer Bradley)
     Historinha de mulher. Fez muito sucesso entre os new-age, wiccas e outros punheteiros. Tudo o que Mary Stewart escreveu no mundo arturiano é lixo. Pode até parecer bom, se você nunca leu nada das lendas arturianas, mas para quem já teve contato com os poemas, ou então a versão de Bernard Cornwell, "As Crônicas de Artur" (que começa com "O Rei do Inverno"), Marion Bradley fez um trabalho água-com-açúcar. A obra realmente interessante da escritora é a série Darkover, uma aventura de fantasia científica (com pinceladas eróticas, mas muito mais bem colocadas que em "As Brumas de Avalon"). Em "As Brumas..." todo mundo é lindo, limpo e cheiroso — certamente como se pareciam os celtas da antiguidade...
     O problema é que "As Brumas..." é muito mais influenciado por bruxaria moderna e papo natureba new-age do que a realidade de como eram os verdadeiros povos celtas, além de usar conceitos alienígenas à lenda arturiana, como reencarnação e descendentes da Atlântida. Não fale comigo destes livros se não quiser me ver realmente bravo.
     Apesar de tudo, há uma coisa muito boa em "As Brumas..." (além das cenas eróticas de mulher-com-mulher): Marion Zimmer Bradley resgata a figura de Morgana le Fay; da dimensão de vilã da história arturiana, Morgana é feita novamente como uma personagem importante (praticamente principal), como um tipo de "o outro lado" do próprio Artur. Ele, a luz e o verão; ela, a noite e inverno: de fato um conceito bem celta que figurava nas primeiras lendas arturianas, e que se perdeu na transliteração do mito para a cristandade da Idade Média. Só por isso a trilogia vale a pena ser lida.

As Crônicas Arturianas * * * * *

(Bernard Cornwell)
     Podem ser consideradas as obras mais realistas atualmente disponíveis sobre a lenda arturiana. Cheio de gente feia, suja e com piolho, estupro e muito sangue, a saga procura ser bem mais realista do que o faérico e lindinho "As Brumas de Avalon", inclusive situando Artur e seus cavaleiros à época da decadência romana, não na Idade Média. História pra macho.
     Cornwell tenta (e com sucesso) se pautar nos personagens que de fato existiram no mito original, mas procurando encaixar os personagens "novos", como Lancelot e Guinevere, mostrando versões muitíssimo adequadas, para que o leitor entenda como o mito original tornou-se o mito de hoje. Talvez para dar uma aliviada, às vezes também aparecem mulheres lindas e alguns homens com todos os dentes na boca. Mas não se engane: é uma trilogia com uma história violenta, e com batalhas bem descritas — tanto as escaramuças individuais quanto as guerras entre exércitos. A pesquisa histórica do autor é excelente; embora ele invente reis inexistentes, os livros mostram como eram as armas e armaduras da época (final do século V), assim como os costumes, moradias, religião e a própria terra onde se situa a história. A forma de magia apresentada na trama é muito divertida: não dá para saber se ela realmente existe ou não — imagine a magia coincidente de Mago: A Ascenção: o leitor decide por si se foi de fato um efeito mágico ou se mera coincidência e truques da mente.
     O conflito religioso entre a Igreja Católica e os druidas também é muito bem mostrado, e segue referências históricas (i.e., os druidas são sujos de esterco e cospem nos outros; os padres são tarados e gananciosos). Artur é o único personagem que parece não pertencer àquela época — um homem visionário e à frente de seu tempo. Embora simplória, a mentalidade de Artur é uma com conceitos morais e éticos mais próximos dos de hoje; já os demais personagens são dotados de uma ideologia que o autor considerou mais adequada para a época. Sendo um texto realista, não há monstros nem fadas, mas sim vilões— e até mesmo heróis — que podem provocar pesadelos.
     O mito arturiano na verdade origina-se de lendas celtas anteriores ao período da trilogia, mas a história se passa à época em que elas se popularizaram nas ilhas britânicas e entre os saxões (que dominaram aquelas ilhas). Um rei que nunca foi rei, e que mesmo tendo sido derrotado, foi adorado por seus inimigos.

Amos Daragon * * *

(Bryan Perro)
     Esta fantasia francesa é uma boa mistura de várias mitologias. De uma escrita muito simples, gostosa de ser lida, é uma história de Seção da Tarde. O único destaque deste livro é mesmo o modo como o autor criou a mitologia e a cultura. A história é básica: um garoto simples e humilde, que na verdade está destinado a ser o Portador das Máscaras Cósmicas. O vilão, claro, é o Terrível Senhor das Trevas. (Pobre coitado. Pula de mundo em mundo e sempre leva bronha. Ele já deveria ter arranjado outro emprego a esta altura.)

Rei Artur *

(Allan Massie)
     Massie é um escritor escocês que viveu nas Scottish Borders boa parte de sua vida adulta. "Rei Artur" é um de seus mais recentes livros, e ele costuma ter como personagens principais de seus romances figuras históricas, com Davi, Júlio César e, infelizmente, Artur Pendragon. Pelo que pesquisei, Allan Massie é um grande e elogiado escritor, mas aqui estamos a opinar sobre este livro em particular, que não passa de lixo. Não leia, não se aproxime. Ou melhor, você quer o meu livro?
     Não tem nada a ver com o Artur histórico. O autor é aficcionado com o mundo greco-latino e para ele Artur é um paga-pau do Império Romano, ao invés de um rei celta. E o livro está recheado de exaltação homossexual — ao ponto dos homens preferirem outros homens a mulheres. Nada contra homossexuais (vide "Darkover"), mas sim contra uma visão feérica da lenda arturiana. Para mim, uma história arturiana é por excelência violenta e enraizada no mito original, que é celta. E nem fale de Lancelot.

Dragões de Éter - Livro 1: Caçadores de Bruxas * * * *

(Raphael Draccon)
      Um ótimo conto-de-fadas para adultos. A escrita é muito boa. O eu-lírico assemelha-se a um contador de histórias, como se você o estivesse ouvindo contar de memória, ao invés de acompanhar um narrador onisciente. Uma aventura muito bem contada, que trata de um tipo de continuação dos velhos contos-de-fadas — há uma releitura dos contos do Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, etc. num mundo completamente novo e próprio (o que é revigorante) de alta magia e totalmente mágico.
     O autor procurou fazer para si um mundo onde ele poderia reviver suas histórias de infância, como Caverna do Dragão (Raphael Draccon tem minha idade e escuta as mesmas músicas que eu).

Armanon * *

(Arthur Bastos e Álvaro Pereira)
     Uma história de fantasia que poderia muito bem se passar num cenário de Dungeons & Dragons. Os autores mudaram os nomes das raças, portanto os elfos não são elfos, nem anões são chamados de anões, ou orcs têm a alcunha de orcs, mas eles estão lá, exatamente como os conhecemos. A única coisa que eles se deram ao trabalho de mudar foi que o ágil e mágico povo da floresta, ao invés de orelhas pontudas, têm "calos auditivos". A história é a de sempre numa história de D&D: uma guerra, o envolvimento dos deuses (e há muitos), magos e clérigos, e vários protagonistas. Os autores prometem continuação para esta saga, que na verdade não tem nada de mais. A não ser que você esteja absolutamente entediado — ou queira idéias para criar uma aventura de RPG — não compensa muito perder tempo lendo Armanon. Mais do mesmo.

O Trílio Negro
* * * * *
(Marion Zimmer Bradley, Julian May, Andre Alice Norton)
     O primeiro livro desta fantasia que viria a ser uma trilogia (ou não; veja adiante) junta três grandes escritoras de FC e fantasia e percorre caminhos literários no mínimo interessantes. "O Trilho Negro" começou como um desafio literário para as três, que se propuseram a montar uma única história, com três princesas gêmeas como personagens principais; a cada autora ficou a missão de desenvolver a personalidade de uma princesa e o que acontece com ela na história. O mundo é bem imaginativo, a começar pelo ponto de partida, um reino pantanoso. Este reino é invadido por um exército sombrio e as três princesas se perdem no pântano, cada uma a procura de um amuleto mágico que a tudo salvará. Pode-se notar nitidamente em cada página da história de cada princesa até mesmo as diferenças estéticas de uma autora para o outra. A obra se encerra em si, como um livro de fantasia pura. Anos depois de "O Trilho Negro" ser publicado, Marion Zimmer Bradley decidou-se por criar uma continuação por conta própria ("A Senhora do Trílio"), que não ficou boa (Bradley pode ser considerada uma autora prolífica, que escreve muita coisa boa, mas também muita coisa ruim). Então acontece de Julian May não ter gostado do que sua colega fez, e também por conta própria, faz duas continuações para "O Trilho Negro", estas sim ficando boas, porque ela verdadeiramente dá seqüência à narrativa (e ao tipo de narrativa) do primeiro livro. Um chama-se "O Trílio de Sangue" e o outro, "O Trilho Celeste". O mundo é expandido, mostrando-se outros lugares além do reino pantanoso. Surgem os elementos de FC quando o leitor descobre que aquele era um mundo altamente tecnológico que se destruiu e sobre ele ergueu-se uma civilização de fantasia (o último livro é totalmente mergulhado no sub-gênero de FC terra arruinada).
     Considerando-se a trilogia, é uma obra muito boa (principalmente os dois últimos livros). O melhor é a mudança de um mundo de fantasia pura para um de fantasia científica, de um modo bem inusitado e criativo, diferente até de Shannara, de Terry Brooks.

Merlin
* * * * *
(Mary Stewart)
     Esta série de cinco livros, dos quais apenas os três primeiros foram lançados no Brasil ("A Caverna de Cristal", "As Colinas Ôcas" e "O Último Encantamento"), pode ser considerada a melhor versão do mito de Merlin já produzido. Para mim estes livros têm um significado especial, porque, depois de "O Senhor dos Anéis", é a obra de fantasia que mais me tocou (ao ponto de ter definido o estilo de narrativa que executo em meus RPGs de fantasia).
     A história, claro, é do mago Merlin (aqui um encantador), e se passa numa Inglaterra mítica, cujo período histórico não pode ser definido claramente. Merlin não é necessariamente um mago; às vezes o leitor pode considerá-lo um matemático, às vezes um curandeiro. O misticismo é muito presente, mas sutil. Mary Stewart se sai muito bem ao reconstruir o mito conforme sua visão: fica moderno sem cair na cova rasa da literatura new age (os três primeiros livros são dos anos setenta). Acompanhamos Merlin desde o nascimento e a infância dele, até o momento em que ele sai de cena, com sua "morte" ao fim da história arturiana. São obras muito ricas em cenários, clima (Stewart é considerada uma das fundadoras do gênero de romance de suspense), desenvolvimento de personagens e também suas personalidades. Merlin é uma figura humanizada (afinal, seria um pouco difícil identificar-se com um ser furtivo e misterioso) e esse é um dos muitos pontos fortes da obra: Merlin torna-se sólido e completo.
     Os três livros foram posteriormente unidos num omnibus, mas um quarto livro saiu na Inglaterra em 1983, que conta a história da infância de Mordred, antes do advento de Merlin. Não faço idéia do porquê figura na série Merlin, mas figura (a única referência ao encantador é sua profecia sobre o menino). Além disso, há rumores de um quinto livro ainda a ser lançado pela idosa autora (Stewart é de 1916), chamado "O Príncipe e o Peregrino". Não obstante, Mary Stewart não publica nada desde 1997.