Alguns livros originais em inglês difíceis de se encontrar, para o apreciador de fantasia e ficção científica...
Ironicamente, Ursula Le Guin ganhou o prêmio Gandalf Grand Master em 1979.
Autor: Marcelo Dior
Data: 04/jun/2008
É isso aí. Hoje — ou melhor, a partir de 1954, com a publicação de O Senhor dos Anéis — você simplesmente não consegue escapar de John Ronald Reuel Tolkien. não dá para ler uma historiazinha sequer de fantasia sem que ela seja: 1. inspirada em O Senhor dos Anéis; ou 2. Oposta aO Senhor dos Anéis. E por quê? Porque a obra de tolkien é um marco, um divisor de águas na literatura de fantasia. Entao, pós-Tolkien, os autores de fantasia só tem duas escolhas, que o fazem conscientemente ou não, de imitar/inspirar-se em Tolkien ou rejeitá-lo. Muitos optam pela segunda opçao, mas ainda sim não conseguem escapar de Tolkien, justamente por tentarem fazer algo diferente dele.
Não me entenda mal, leitor. Eu adoro Tolkien, e O Senhor dos Anéis é uma das melhores — apesar de não ser a melhor — obras que já li, e sua influência na cultura ocidental é inegável e permanente. Sem ele, nós não teríamos o Dungeons & Dragons ou o filme “A Lenda”; se não fosse pela indével marca de Tolken em suas juventudes, nunca teríamos A Torre Negra de Stephen King ou a série Shannara de Terry Brooks, ou mesmo o ilustre Harry Potter.
Terry Brooks, por exemplo, é muito bom. E é um daqueles autores que procura fazer sua própria fantasia (e não descaradamente chupinhada de O Senhor dos Anéis, como certos Christopher Paolinis andam fazendo) mas, ainda assim, é obviamente inspirado no tipo de alta fantasia que Tolkien fermentou e destilou a partir de inúmeras fontes mitológicas como só ele poderia ter feito (e tudo porque seu editor implorou por uma continuação de O Hobbit). Quase gosto mais da série Shannara do que de O Senhor dos Anéis — talvez por Brooks me apresentar personagens factíveis demais, com humores e aspirações, desencantos e desesperos muito parecidas com o que nós, pessoas comuns, teríamos numa situação similar à apresentada nas sagas do povo das Quatro Terras, eu não acho que ela seja melhor que a da Terra-média, com seus guardiões que praticamente enfrentam, sozinhos, legiões de inimigos sangüinários, tal qual os heróis gregos de outrora. Por mais que Tolkien não fosse um primor como autor literário (defeitos, há muitos) ele conseguiu passar uma certa textura em sua obra difícil de ser encontrada.
Felizmente temos gente como David Eddings, que se resolveu por escrever fantasia (ele escrevia em outros temas) quando, nos anos setenta, esbarrou com uma edição de O Senhor dos Anéis numa vitrine e surpreendeu-se por aquela história velho ainda ser editada (Eddings se formou no mesmo ano da primeira publicação de A Sociedade do Anel e, pode-se supor, leu-o na juventude); assim, percebeu que o mundo da literatura fantástica poderia lhe oferecer algo, e voltou-se sobre velhas anotações e rabiscos que quase havia esquecido, para criar mundos de fantasia. Não é evidente nas obras de Eddings (que recentemente admitiu que a participação de sua esposa foi fundamental em quase todas as suas obras) qualquer influência de O Senhor dos Anéis; nem de aproximação, nem de afastamento da obra tolkeniana.
E então temos meus escritores favoritos, o casal David e Leigh Eddings, em minha opiniao criadores de obras superiores aO Senhor dos Anéis. Eles criaram obras de fantasia de qualidade inimaginável (e, em minha opinião, inalcançável) com sacadas geniais como os deuses e a criação do mundo da tetralogia The Dreamers ou o sarcasmo afiado e cínico do protagonista de The Redemption of Althalus ante o descobrimento da magia ou da guerra santa que os deuses querem que ele comande. Este livro, The Redemption of Althalus é, de fato, em minha humilde opinião a melhor história de fantasia já escrita.
Voltemos. Já que a fantasia dos últimos cinqüenta anos não pode escapar de Tolkien, de um jeito ou de outro, então minha saída foi procurar por quem escreveu — ou já escrevia — antes de Tokien escrever seu famigerado O Senhor dos Anéis. E foi aí que finalmente voltei-me para a verborragia interminável de Robert E. Howard, até então desinteressante (eu sou um grande fa dos gibis de Conan, o Bárbaro, a maior personagem de Howard, não da literatura que o originou).
Mas de início eu estava desconsolado. Não conseguia encontrar autores famosos que escreveram antes de Tolkien e que não fossem a mais descartável das literaturas de pulp magazines, como Howard, Poul Anderson ou Edgar Rice Burroughs (até há coisas boas nas histórias pulp, mas se tem que cavar muito). Até que descobri que a fantasia que eu desejava não estava no mundo da fantasia, mas da ficçao científica! Explico.
Muitos autores e autoras de fantasia do começo e meados do século XX transitavam entre os dois gêneros sem muito pudor. De fato, muitos deles mantinham elementos de fantasia em suas obras de FC, e colocaram vários elementos de FC em seus textos de fantasia. E foi assim que descobri as obras de fantasia de Ursula K.Le Guin, Andre Alice Norton, Michael Moorcock e Anne McAffrey. Todos estes ilustres escritores são hoje simpáticos velhinhos nascidos nas décadas de 1920 e (no caso de Moorcock) 1930 que sabidamente foram influenciados por outros escritores ou já escreviam fantasia quando O Senhor dos Anéis fora publicado.
Infelizmente, meu contato com essa verdadeira montanha de obras fascinantes veio tardiamente. Desde bem criança sou fã de ficçao científica (o primeiro livro que li por vontade própria, i.e. sem obrigação escolar, foi o volume A Nave Explorer em Perigo, da série Perry Rhodan, aos oito ou nove anos); mas encontrar literatura de qualidade no Brasil é praticamente um ato de heroísmo. Só vim a ler O Senhor dos Anéis no começo de 2001 — menos de um ano antes do lançamento do primeiro filme; O Hobbit eu havia lido dois anos antes e O Silmarilion em 2000 (e claro que não entendi nada, até relê-lo após O Senhor dos Anéis), e eu já jogava Dungeons & Dragons desde 1994!
Imagino que foi o RPG que me despertou o interesse pela literatura de fantasia. Na adolescência (comecei a jogar D&D com 14 anos), no entanto, era muito difícil o acesso a literatura de qualidade. Meus pais sempre estimularam a leitura de seus filhos, mas O Senhor dos Anéis (que sabia desde cedo ser a principal influência do Dungeons & Dragons) era um livro muito, muito caro. Então eu ficava relegado aos finos volumes da Coleção Vagalume ou as raras obras de fantasia e FC que encontrava nas bibliotecas das escolas das pequenas cidades em que morei — de fato, na adolescência li mais Arthur Conan Doyle e Machado de Assis do que qualquer outro autor ou genero. E até hoje literatura é cara no Brasil; só pude mergulhar de cabeça na literatura que sempre quis ler com a congruência de três fatores: meu domínio da língua inglesa, o advento do Real e a estabilização do dólar em algo como 2:1. Os dois primeiros aconteceram do meio para o fim da década de 1990; o último, só mais ou menos a partir de 2004. Com esses eventos conspirando a meu favor, voltei-me para o mundo do pocket book e nunca mais voltei.
E não é para menos. Veja este ótimo exemplo: Coelho Vermelho, a (até agora) mais recente obra de Tom Clancy a ser lançada no Brasil custa, traduzido pela Editora Record, R$ 72,00 na Livraria Saraiva. Na mesma livraria, nem há duas estantes de distância, vende-se sua versão pocket, Red Rabbit, original em inglês, por R$ 16,60. Mais de quatro vezes mais barato! E ainda no texto original, sem o filtro da tradução. Qual deles você teria comprado, sinceramente, se arranhasse um pouquinho a língua de Shakespeare?
Mas nos EUA e na Inglaterra também há livros caros. O mesmo livro, Red Rabbit, em seu formato “hardcover”, custa no portal on-line da Saraiva R$ 60,30 (tá, okay, até este é mais barato que a cópia traduzida). Nesses países os livros saem preferencialmente no formato “mass market paperback”, que é o formato pocket, ou livro de bolso. São publicações baratas, de capa pouco elaborada, com miolo de papel de baixa qualidade, cujas folhas amarelam e se soltam facilmente; são impressos até quase a borda, numa tipografia não-raro suja. São livros para se consumir, quase descartáveis, que custam muito pouco para se produzir e, justamente por isso, a um preço acessível: a média fica entre US$ 6,99 — ou US$ 8,99 para os com capa mais bem ilustrada. Freqüentemente as editoras lançam uma versão “hardcover” de seus livros, estes sim bem encadernados, com belas capas, miolo de papel duradouro e branco como a neve, tipografia limpa e bem acabada, e dust jackets com ilustrações elaboradas; são superiores à maioria de nossos livros aqui no Brasil, porque comparativamente nossos volumes impressos são outro padrão, o “trade paperback”, ou brochura. As versões “hardcover” ianques são praticamente tão caras quanto os nossos brochura: em torno dos US$ 27,95 (uma obra de literatura publicada aqui não sai por menos de R$ 50,00. Com o dólar a 2:1, fica elas-por-elas). Os nossos “hardcover”, luxuosos, por outro lado, custam uma pequena fortuna.
No entanto, e felizmente, algumas editoras, como a Martin Claret e a L&PM, perceberam que há um nicho a ser explorado, o da literatura barata dos pocket books. Nossos pockets ainda estão usando papel bom demais, e o grande volume dos produtos em catálogo é de obras de licença livre ou tradicionais da literatura brasileira (alguém quer ler "A Moreninha" aí?), mas dá para encontrar coisa muito boa da literatura universal — eu comprei "Tuareg", de Alberto Vasquez-Figueroa, e "Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias de Edgar Allan Poe", ambos pela L&PM, por respectivos R$ 16,50 e R$ 11,00. Isso sim é preço de livro!
E assim eu vou, baixando audiobooks na internet e comprando um pocket book na Saraiva ou em sebos quase todo mês, explorando legados tolkenianos, como Elaine Cunningham e Bob Salvatore, ou mistos inusitados de fantasia com ficção científica, como Eoin Colfer e Philip José Farmer.
Venha explorar esse mundo você também. É divertido!